quarta-feira, 8 de abril de 2009

Flores









Foto: A.M.




elas passam vistosas rescendentes

o jardineiro municipal
deixa as mãos carinhosas nas flores
que ergue do chão
mas levanta os olhos para as outras
que flutuam no passeio

é então que as rosas
ciumentas
se põem a enrubescer

Anthero Monteiro (inédito)
Santa Maria da Feira, 23/06/2003

segunda-feira, 6 de abril de 2009

As Rosas













Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes
E a exaltação de todas as esperas.

Sophia de Mello Breyner Andresen,
«Dia do Mar» in Cem Poemas de Sophia,
Paço de Arcos, Visão JL, 2004

Escreve Helena Malheiro a propósito deste poema:

«Para "prender" o tempo, a poetisa não hesita em "trincar" as rosas, como se a energia vital da flor a pudesse contaminar também.»
Cf. O Enigma de Sophia - Da Sombra à Claridade, Alfragide, Oficina do Livro, 2008

Nota: Ensaio altamente recomendável, até porque a autora é Prémio Revelação do Ensaio da APE - 1980
.

Rosa










Rosa
Rosa em verso, rosa em prosa:
Rosa rosa,

Verdadeira, recortada,
sempre votiva é a rosa.
Quem a dá, quem a ostenta,
quem a colhe, quem a inventa,
quem dela – a rosa – se lembra
faz o voto de quebrar
a pessoal solidão.

Se não troco o pão por rosas,
não troco a rosa por pão.

Rosa.
Rosa em verso, rosa em prosa:
rosa, rosa.

Rosa nome, rosa coisa,
rosa flor, rosa rosa,
rosa traço de união.

Rosa fugaz, recolhida
noutra rosa já nascida.
De rosa em rosa é a vida.

Ó rosa breve fulgor,
lampejo na escuridão.

Se não troco o pão por rosas,
não troco a rosa por pão.

Alexandre O’Neill, Coração Acordeão,
Lisboa, O Independente, 2004

Um poema uma rosa
















Anthero Monteiro




não terá sido um poema
o que te pus nas mãos
para depois me dizeres
que o não entendes

não foi um poema
foi uma rosa

e não é uma rosa
um poema ininteligível?
e não é a beleza
o maior dos enigmas
tão grande pelo menos quanto a morte?

é verdade
que se não compreendes a rosa
também não foi uma rosa
o que te dei

mas repara:
não será que no mínimo
tens agora
as mãos perfumadas?

Anthero Monteiro,
Sete Vezes Sete Nuvens, Porto, Egoiste, 2010

Arte poética





Rosa Alice Branco
in
www.quasi.com.pt



Gostaria de começar com uma pergunta
ou então com o simples facto
das rosas que daqui se vêem
entrarem no poema.

O que é então o poema?
Um tecido de orifícios por onde entra o corpo
sentado à mesa e o modo
como as rosas me espreitam da janela?

Lá fora um jardineiro trabalha,
uma criança corre, uma gota de orvalho
acaba de evaporar-se e a humidade do ar
não entra no poema.

Amanhã estará murcha aquela rosa:
poderá escolher o epitáfio, a mão que a sepulte
e depois entrar num canteiro do poema,
enquanto um botão abre em verso livre
lá fora onde pulsa o rumor do dia.

O que são as rosas dentro e fora
do poema? Onde estou eu no verso em que
a criança se atirou ao chão cansada de correr?
E são horas do almoço do jardineiro!
Como se fosse indiferente a gota de orvalho
ter ou não entrado no poema!

Rosa Alice Branco, «Da Alma e dos Espíritos Animais» in
Soletrar o Dia – Obra Poética, V. N. Famalicão, Quasi Edições, 2002

Tema de Abril: ROSA ROSAE


Comecei a aprender Latim com 10 anos.
A primeira palavra que aprendi a declinar foi ROSA.
ROSA, ROSAE (nominativo e genitivo) é o tema escolhido para este mês, a pensar nas sessões poéticas de Maio próximo.

Diz-se que Maio é o mês das rosas. Maio será, neste blogue, o mês dos poemas sobre rosas e Rosas de todas as cores, de todos os géneros e em todos os sentidos e de todas as direcções da rosa-dos-ventos.

Encontraremos aqui também poemas de poetas com nomes de Rosa e, para evitarmos ciúmes, talvez estendamos o tema a outras flores.

Apesar de parecer uma temática um tanto fútil, não esqueçamos que a rosa é o símbolo da perfeição e que, talvez por isso, os poetas a associam também à arte poética.

Comecemos, pois, a declinar ROSA em todos os casos: ROSA, ROSAE...