segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Impressionismo










Man Ray,
Le violon d'Ingres,
1924






a curva do teu seio nu
um violino poisado sobre o instante
a eternidade a ver

Anthero Monteiro, in Goulart Gomes (org.), Antologia Poetrix 3,
Bahia (Brasil), Livro.com, 2009

domingo, 2 de agosto de 2009

A confissão






Foto in
open.salon.com




acabrunhado sob o saco ingente
e sob um plúmbeo remorso
muito mais pequenino que os meus crimes
ia ali alijá-los
no trono do perdão
a troco de uma bênção redentora
na língua lustral do Lácio

ia poder enfim
liberto daquele ónus humilhante
regressar ao larguinho exterior
emoldurado de tílias
para ser mais um pássaro entre tantos

perdoai-me Padre que pequei
gritaram-lhe os meus olhos já sugados
pela treva da sotaina

e fui depositando num cicio
o imenso rol de três delitos sórdidos
----- insubmissões domésticas
----- as desatentas preces de inexplicáveis pressas
----- e por fim
----- deixara para o fim a carga mais pesada
----- os aprazíveis pensamentos maus
----- à roda de sentidos consentidos

e quando o fardo me levou com ele
até ficarmos rasos com o chão
vi-lhe a sombra das mãos subir aos meus cabelos
decerto ia afagar-mos compreensivo
erguer da lama os joelhos da minha alma
e derramar na fronte da ignomínia
o refrigério tão apetecido

mas as mãos preferiram-me as orelhas
p´ra levantar do chão do meu opróbrio
apenas o meu corpo de menino

e ouvi
todos ouviram afinal
daquela voz de deus tonitroante
que esquecera porém todo o Latim
a ameaça do inferno inda na terra

humilhado saí
ficou apenas
na fria laje a minha alma de rojo

e foi o remédio sacrossanto
emendei-me p’ra sempre
nunca mais disse a verdade

Espinho, 28 de Julho 1999

Antero Monteiro, Evangelho Segundo (inédito)

A ressurreição de Lázaro







Van Gogh,
A Ressurreição
de Lázaro






Lázaro bem ouviu as palavras do fazedor de prodígios
ainda que lhe parecessem longínquas
deixou-se ficar de olhos bem apertados
para escapar às lanças agudas da luz
que maçada voltar à vida – pensou devagarinho
para ninguém suspeitar que pensava
nunca dormira um sono tão reparador
num leito macio de esquecimento e outras nuvens

os circunstantes gastaram-lhe o nome
insistiram com ele dobraram-lhe o corpo
sentaram-no no leito ergueram-no
e ampararam-no de pé no meio da sala
foi quando estrugiram as palmas
que foi abrindo dolorosamente os olhos perros
como portões enferrujados de há séculos
por fim levaram-no para a mesa e esvaziaram os copos
enquanto o enchiam de perguntas ininteligíveis
toda a família já trocara de roupa e dançava garridamente

pela madrugada adormeceram sobre o próprio vómito
e Lázaro levou a sua náusea para o quintal

quando o nó das trevas se desfez
o sol foi encontrá-lo enforcado num dos ramos da figueira

a essa hora já o fazedor de prodígios
estava na cidade mais próxima
a abrir os olhos dos cegos
para a vida insuportável

Porto, 9 de Novembro de 2005

Anthero Monteiro, Evangelho Segundo (inédito)
Este poema foi, no entanto, publicado pelo poeta Fernando Morais, no seu belo livro de poesia Quadrar (Apontamentos do Quotidiano), ed. do autor, 2007, num conjunto de páginas dedicadas aos seus amigos, entre os quais, ainda que imerecidamente, fui incluído.

"Deo gratias"










Foto de
Anthero Monteiro



depois da refeição
era a hora de agradecer
as dádivas celestes

erguiam-se os comensais
e ecoava o deo gratias no convento
era então que o monge encostava à mesa
aquela súbita erecção

religiosamente
e sempre àquela hora menos própria
os corpos cavernosos
enchiam-se
de uma incontrolável gratidão


S. Paio de Oleiros, 30/7/2001

Antero Monteiro, Evangelho Segundo (inédito)

Fonte












Foto de
Anthero Monteiro






há meses que não chove
e todavia a secular fonte da aldeia
lá está fiel a sussurrar
os bons dias a quem chega
oferecendo-se às mãos e às bocas
ávidas do beijo límpido

mãe esquálida
arranca das entranhas torturadas
o alimento do filho
sob o sol que magoa de tanta secura

chega outro homem sedento
e diz que é deus que só sabe dar-se
mesmo aos que roubam
e aos que cerram as mãos e o coração

tem razão certamente
os humildes como a fonte rente ao solo
para além da água e da razão
e do orgulho de tudo possuírem
têm com deus o infinito

eu estendo as mãos
toda a água se me esvai entre os dedos
e fico apenas com a infinita sede

Espinho, 24 de Agosto 2005

Anthero Monteiro, inédito

Destino













Foto de
Anthero Monteiro





sigo erecto e sobranceiro
mas quem me aponta o caminho
é minha sombra deitada

Anthero Monteiro, in Goulart Gomes (org.), Antologia Poetrix 3,
Bahia (Brasil), Livro.com, 2009

Tema de Agosto: Poemas de Anthero Monteiro




Anthero Monteiro,
foto de Elias Moreira







Em Agosto, há mais tempo para pensar egoisticamente em mim (haverá?).

Um pouco como toda a gente: cada um pensa em descansar, em gozar as suas férias, em cuidar do seu corpo e talvez do seu espírito. Ainda que, no meio da multidão, cada um tende a isolar-se, a tratar de si, porque as férias nos empurram para longe dos patrões, dos chefes, dos colegas, dos locais frequentados todo o resto do ano. Eis aqui um pretexto para, durante este mês, colocar na Praça da Poesia mais poemas meus, porque, até agora, com algumas excepções, privilegiei os outros poetas. Não vou agora contá-los, mas sei que, a um mês de completar um ano de vida, a Praça foi abrigo para mais de duzentos poetas e mais de 500 poemas. Não fico, pois, com a consciência pesada, se, talvez por uma questão de comodismo (não terei assim que fazer grandes pesquisas), dedicar, nestas férias, este espaço a alguns...

POEMAS DE ANTHERO MONTEIRO