segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Volta o Outono




Foto in
peace-on-earth.org







Um enlutado dia cai dos sinos

como teia tremente duma vaga viúva,

e uma cor, um sonho

de cerejas afundadas na terra,

e uma cauda de fumo que chega sem descanso
para mudar a cor da água e dos beijos.
Não sei se me entendem: quando lá do alto

se avizinha a noite, quando o solitário poeta

à janela ouve correr o corcel do Outono

e as folhas do medo calcado estalam nas suas artérias,

há qualquer coisa sobre o céu, como língua de boi
espesso, qualquer coisa na dúvida do céu e da atmosfera.


Voltam as coisas ao lugar,

o advogado indispensável, as mãos, o óleo,

as garrafas,
todos os indícios da vida: sobretudo as camas
estão cheias dum líquido sangrento,

as pessoas depositam a confiança em sórdidos ouvidos,

os assassinos descem escadas,

e afinal não é isto, mas o velho galope,

o cavalo do velho Outono que treme e dura.


O cavalo do velho Outono tem a barbada vermelha

e a espuma do medo cobre-lhe as ventas

e o ar que o segue tem forma de oceano

e perfume de vaga podridão enterrada.


Todos os dias desce do céu uma cor de cinza

que as pombas devem repartir pela terra:

a corda que o esquecimento e as lágrimas entretecem,

o tempo adormecido longos anos dentro dos sinos,

tudo,

as velhas roupas traçadas, as mulheres que vêem chegar a neve,

as papoilas negras que ninguém pode contemplar sem morrer,

tudo vem cair às mãos que levanto

no meio da chuva.


Pablo Neruda
, Antologia Breve (tradução de Fernando Assis Pacheco)
___________

Convém não esquecer:

- 11 de Setembro não é apenas aquela data trágica dos atentados contra as torres gémeas de Nova Iorque. Nesse dia, ainda que em 1973, ocorreu também o golpe de estado de Pinochet que destruiu a democracia chilena. O poeta prémio Nobel Pablo Neruda, que estava gravemente doente de um cancro da próstata, ainda que estabilizdo, sofreu nesse dia um agravamento inesperado, atribuído à ansiedade dos acontecimentos políticos. Começa com febre alta e o médico aconselha umas injecções e que não tome conhecimento das notícias.

- 14 de Setembro: Neruda parece restabelecido, chama a sua mulher e dita-lhe o último capítulo de suas memórias. Nesse momento chegam camiões militares para vistoriar a casa. Matilde esconde os papéis, que conseguem ser salvos da inspecção.

- 18 de Setembro: Neruda volta a ter febre. Mandam buscar um ambulância para levá-lo para uma clínica.

- 19 de Setembro: ingressa na Clínica Santa María. O embaixador do México vem oferecer-lhe exílio, deixando um avião à sua disposição. O poeta nega-se a sair de seu país.

- 20 de Setembro: Matilde vai a Isla Negra buscar uns livros que lhe pedira Neruda. Quando ali estava, é avisada de que o marido piorara.

- 22 de Setembro: Neruda toma conhecimento dos horrores da repressão política e entra num estado febril ao saber sobre todos os seus amigos mortos. Nessa mesma noite a enfermeira dá-lhe um calmante e Neruda passa a noite toda dormindo calmamente.

- 23 de setembro: Às 22:30 exala o último suspiro, vítima de enfarte.


Das memórias de Matilde Urrutia ("Mi vida junto a Pablo Neruda") in
http://www.colegiosaofrancisco.com.br/alfa/chile/chile-6.php

O Outono é triste



Foto
A.M.









Aonde estou não há Outono. O Outono é triste...
Aqui não deixam nunca as folhas de ser verdes
e há a relva e os rebentos e a alegria dos pássaros...
E os sítios em que amámos?... Vou contigo, Mulher,
vamos de braço dado aos sítios de outro tempo...
Ah! que não vemos musgo, muros velhos, mofo...
Saudades?... Nem ao menos saudades... Somos os dois tão jovens!...
Lá vai uma flor nova romper. Detemo-nos, deixamos
de respirar - e eis o botão rasgado e a flor aberta...


Sebastião da Gama,
Pelo Sonho É que Vamos,
Lisboa, Edições Ática, 1979, 3.ª ed.

Mar de Setembro






Foto
A.M.






Tudo era claro:
céu, lábios, areias.
O mar estava perto,
fremente de espumas.
Corpos ou ondas:
iam, vinham, iam,
dóceis, leves – só
ritmo e brancura.
Felizes, cantam;
serenos, dormem;
despertos, amam,
exaltam o silêncio.
Tudo era claro,
jovem, alado.
O mar estava perto,
puríssimo, doirado.


Eugénio de Andrade, Mar de Setembro

domingo, 20 de setembro de 2009

Tempo






Foto
A.M.








Não sei se te nomeie ou nomeie o vento,
isto que passa
e procura os outros lugares onde o pólen cai.
Talvez uma colmeia confie ao seu mel o que
ficou de um ano
em que a tempestade não se fez ouvir sobre
as corolas.
O que viste antes de setembro perdeu-se,
apagou-se,
afastou-se sem dizer nada,
como os barcos que pouco a pouco se
afastaram da nossa vida,
calados e brancos,
com as suas gaivotas de asas fechadas,
envelhecendo lado a lado, sobre o convés.


José Agostinho Baptista, Agora e na Hora da Nossa Morte
,
Lisboa, Assírio & Alvim, 1998

Oração







Foto
A.M.








Outono. Morre o dia.
Cai sobre as coisas plácidas e calmas
um véu de sombra e de melancolia
que dulcifica e embrandece as almas.

Todo o meu ser se invade
de enervantes e místicas doçuras,
de mansidão, de paz, de suavidade,
de sentimntos bons, de ideias puras.

No coração perpassa
uma piedade e compaixão serena
por todos os validos da desgraça,
por tudo quanto sofre e quanto pena:

pelos pequenos entes,
sem abrigo, sem lar e sem carinho,
que são como avezinhas inocentes
postas por mão cruel fora do ninho;

pelos encarcerados
que lançam, dentre as grades da cadeia,
ao ar, à luz, aos montes afastados
a vista aflita e de amargura cheia;

pelos que vão pedindo
de porta em porta o pão de cada dia,
tristes, que sempre a morte olham sorrindo
porque ela unicamente os alivia;

pelos que andam distantes,
entre cruezas, fomes e perigos,
sentindo a nostalgia lancinante
da família, da pátria, dos amigos;

e numa emoção crente,
numa fé viva, forte e benfazeja,
a Deus suplico fervorosamente
que os guie, que os socorra, que os proteja.


Augusto Gil, Musa Cérula, 1894

Tema de Setembro: OUTONO









Foto
Anthero Monteiro








Setembro vai adiantado.
Mas ainda teremos tempo para coligir alguns poemas, dentro do espírito temático deste blogue.


Pé ante pé, o Outono está a chegar. Sente-se na suavidade dos seus passos e no rumorejar das suas roupagens.


Os poetas pressentem-no, apreciam a sua chegada e simultaneamente temem-no: às vezes essa suavidade engana... Basta o prenúncio das folhas que já se lançam no chão, para servir de tapete às gerações vindouras...


Este mês, aqui na Praça da Poesia, falaremos, então do...

...OUTONO

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O laço do poeta










Fotógrafo Evaristo
Espinho, 1949(?)







Esta foto está patente, entre outras, num móvel do hall da minha casa. Entrando e saindo a todo o momento, há muito que não reparava nela.

Hoje deu-se o reencontro, quando estive a limpar-lhe o pó a ela e às suas congéneres.

E isso levantou outro pó e foi possível encontrar também na memória o tempo dos meus primeiros anos de professor, em que lia aos meus alunos, provocando-lhes momentos inolvidáveis ora de riso ora de lágrimas, O Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos.

Aí, o Zezé ansiava repetidamente por ter um dia o seu laço de poeta.

Também eu me queixava muitas vezes, recordando essa simpática personagem, por nunca ter tido um laço ou, ao menos, uma gravata-borboleta como usaram alguns poetas que conheci, ao vivo ou em fotografias.

Afinal, a foto atesta que eu tive também o meu laço de poeta. Só que nessa altura não imaginava sequer o que era a poesia e só pelos 12 ou 13 anos comecei a versejar.

Só? Muito poucos devem ter começado mais cedo, embora só tenha publicado o primeiro livro de poesia aos 51 anos.

Hoje, tive saudades daquele laço, mas também daquele tempo... Sinal de que a idade avança e de que me sinto a regressar à infância até recuperar o meu laço de poeta...

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Hoje regressei também ao blogue, depois de me ter ausentado para parte incerta para uns dias de descanso e de sol... Não contava interrompê-lo, mas o hotel não tinha wireless, apesar de esse serviço estar anunciado, e só podia dispor de um computador onde o acesso à net só era feito através de moedas que se iam introduzindo numa maquineta. Peço, por isso, desculpa de nem sequer me ter despedido dos meus amigos e leitores.

Mas aqui estamos de novo e creio que é boa altura para encerrar este tema que dediquei abusivamente a mim próprio durante o mês de Agosto. Até já. Anunciarei logo que possível o tema seguinte.