domingo, 11 de outubro de 2009

Gin sem tónica







Foto
Anthero Monteiro





Uma garrafa de gin
estava a preocupar
o pescador
a garoupa e o rodovalho
não tinham aparecido
pró jantar
que fazer?
telefonou ao ministro
da Pesca e do Trabalho
mas o ministro
estava a trabalhar
na cama
com a mulher
foi então
que a garrafa de gin
sugeriu discretamente
porque não
telefonar ao presidente?
telefonaram
o presidente da nação
estava em acção
na cama
com a mulher
nessa altura
até que enfim
encontraram a solução
o pescador
foi para a cama
com a garrafa de gin

Mário-Henrique Leiria, Contos do Gin-Tonic,
Lisboa, Editorial Estampa, 1989

Henrique I, o Pássaro






Foto in
Wikipédia






Henrique I, o Pássaro, era um rei muito seco.
Por exemplo, nunca bebeu. Comer, comeu, mas nunca bebeu.
Nem vinho nem cerveja. Nem aguardente.
Nem um grogue.
Não era inimigo do álcool, não bebia álcool porque não bebia nada.
Limitava-se a comer. Nem um gole de água bebeu em toda a sua vida.
Chegava mesmo a odiar a água, nem conseguia olhar para ela.
Ao meter as mãos na água, brrr. Nem pensar, porque quando o fazia logo
lhe apareciam borbulhinhas lilases. Assim, odiava exclusivamente a
água; por exemplo, já não detestava tanto a aguardente. Mas não a
bebia. Também a detestava, mas não tanto. Portanto, odiava a água.
Ficava sempre com aquelas borbulhas. Mas também não bebia leite,
nem sumo de laranja, nada.
Nem coca-cola.
Mas ainda não existia coca-cola, e mesmo que existisse não a beberia.
Não beberia. Antes cuspi-la.
Mas comia.
É verdade que não comia de tudo.
Por exemplo, sopa não comia.
Comia muitas coisas, mas sopa não. Assim vivia. Era capaz de comer
imenso. Só não bebia. Comia. Era o seu maior prazer. Era um rei
esquisito. Um caso bastante estranho. Coisas que acontecem.

Endre Kukorelly

Poeta húngaro, nascido em Budapeste em 1951.

Soneto del vino / Soneto do vinho






Francisco de Goya,
El Bebedor
(1777)




¿En qué reino, en qué siglo, bajo qué silenciosa
Conjunción de los astros, en qué secreto día
Que el mármol no ha salvado, surgió la valerosa
Y singular idea de inventar la alegría?

Con otoños de oro la inventaron. El vino
Fluye rojo a lo largo de las generaciones
Como el río del tiempo y en el arduo camino
Nos prodiga su música, su fuego y sus leones.

En la noche del júbilo o en la jornada adversa
Exalta la alegría o mitiga el espanto
Y el ditirambo nuevo que este día le canto

Otrora lo cantaron el árabe y el persa.
Vino, enséñame el arte de ver mi propia historia
Como si ésta ya fuera ceniza en la memoria.

Jorge Luis Borges


Em que reino, em que século, sob que silenciosa
conjunção dos astros, em que secreto dia
que o mármore não gravou, surgiu a fabulosa
e singular ideia de se inventar a alegria?

Com outonos de ouro a inventaram. O vinho
flui vermelho através das gerações
como o rio do tempo e no seu árduo caminho
oferece-nos a sua música, o seu fogo e os seus leões.

Na noite do júbilo ou na jornada adversa
exalta a alegria ou mitiga o espanto
e o ditirambo novo que este dia lhe canto

cantaram-no outrora o árabe e o persa.
Vinho, ensina-me a arte de ver a minha própria história
como se esta fosse já cinza na memória.

Tradução de Anthero Monteiro

sábado, 10 de outubro de 2009

Rubayat - Odes ao vinho



Velasquez,
Los borrachos
ou
The Feast of Bacchus
(1627)






Uma vez que ignoras o que te reserva o dia de amanhã,
procura ser feliz, hoje.
Toma uma ânfora de vinho, senta-te ao luar e bebe
lembrando-te que, talvez amanhã, a lua te procurará em vão.


Homem que bebes, ânfora imensa, ignoro quem te modelou.
Somente sei que és capaz de conter três medidas de vinho
e que a Morte te destruirá um dia.
Então perguntarei a mim mesmo, mais demoradamente,
por que é que foste criado, por que é que foste feliz
e por que é que, agora, és somente poeira.


Quando nasci? Quando morrerei?
Nenhum homem pode evocar o dia do seu nascimento
e designar o da sua morte.
Vem, minha dócil bem-amada!
Eu quero pedir à embriaguez que me faça esquecer
que nunca saberemos nada.


Na primavera, gosto de me sentar na orla de um campo florido.
E, quando uma bela rapariga me traz uma taça de vinho,
não me importa nada a minha salvação.
Se eu tivesse essa preocupação, valeria menos que um cão.


Ninguém pode compreender o que é misterioso.
Ninguém é capaz de ver o que ocultam as aparências.
As nossas moradas são provisórias, excepto a última: a terra.
Bebe vinho! Basta de palavras supérfluas.


Bebe vinho! Receberás vida eterna.
O vinho é o único filtro que pode restituir-te a juventude.
Divina estação das rosas, do vinho e dos amigos sinceros.
Goza este fugitivo instante que é a vida.


A vida escoa-se.
Que resta de Bagdad e de Balk?
O menor toque é fatal à rosa completamente desabrochada.
Bebe vinho e contempla a lua, evocando as civilizações
que ela já viu extinguirem-se.


Quando a sombra da Morte se alongar para mim,
quando o feixe dos meus dias estiver atado,
eu hei-de chamar-vos e vós levar-me-eis, ó meus amigos!
Quando eu me tornar pó, vós moldareis
com as minhas cinzas uma ânfora que enchereis de vinho.
Talvez, então, me vejais reviver.


Numa taberna, pedi a um velho
que me informasse sobre aqueles que morreram.
Respondeu-me:
«Não voltarão. É tudo o que sei. Bebe vinho!»


Os sábios não te ensinarão nada,
mas a carícia dos longos cílios de uma mulher
revelar-te-á a felicidade.
Não esqueças que os teus dias são contados
e que, bem depressa, tu serás presa da terra.
Compra vinho, afasta-te para um canto e deixa-o consolar-te.


Cansado de interrogar, em vão, os homens e os livros,
eu quis interpelar a ânfora.
Pousei os meus lábios sobre os seus e murmurei:
Para onde irei quando morrer?
A ânfora respondeu: Bebe na minha boca.
Bebe longamente. Jamais voltarás aqui.


Ignorante, que te julgas sábio, vejo-te sufocado
entre o infinito do passado e o infinito do futuro.
Quererias implantar um limite entre esses dois infinitos
e aí te alcandorares…
Melhor será que te sentes sob uma árvore,
junto de um jarro de vinho que te fará esquecer a tua impotência.

Omar Khayyam, Rubayat - Odes ao vinho,
Lisboa, Editorial Estampa, 1990
(selecção de Anthero Monteiro para este blogue)
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Hakim Omar Khayyam nasceu em Naishápúr, cidade do nordeste da Pérsia, em 1048, e morreu em 1123. Ficou famoso não só por ser poeta, mas também conceituado matemático, geómetra e astrónomo, tento dado uma larga contribuição à reforma do calendário persa.

A defesa do poeta



Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além

Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs na ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa

Sou um instantâneo das coisas
apanhadas em delito de perdão
a raiz quadrada da flor
que espalmais em apertos de mão

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
Ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer

Natália Correia, Poemas a Rebate,
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1975

Tema de Outubro: POESIA PARA COMER... E BEBER












Henri Matisse, A mesa posta, 1897

in radiation-vibe.blogspot.com

O Outono continua... Mas, com o novo mês (e chegamos atrasados...), é altura de passar a outro tema, eventualmente mais animador.

A partir de um conhecido poema de Natália Correia - A Defesa do Poeta -, iremos conhecer textos poéticos relacionados com os alimentos e a gastronomia.

Abriremos assim uma ementa poemática que nos oferecerá entradas e aperitivos, pratos de peixe e de carne, sobremesas (fruta e doce), sem esquecer as bebidas para empurrar...

E, como sempre acontece junto da abundância, talvez consigamos divisar, entre nuvens de fumo, o espectro da fome a espreitar a fartura, o excesso e o vómito.

Então, é fartar, vilanagem! Cá vai a...

POESIA PARA COMER... E BEBER.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Nova temporada da Onda Poética inicia-se dia 8/10

Aí está a rentrée. Na próxima quinta-feira, dia 8 de Outubro, às 21.30 horas, na sala das sessões da Junta de Freguesia de Espinho, rua 23, realiza-se a primeira tertúlia poética da temporada.

Os poemas foram, desta vez, escolhidos, em grande parte, por um dos seus mais jovens elementos, a Bebiana Ribeiro, e a componente musical estará a cargo do Carlos Andrade, com a sua voz e a sua guitarra acústica.

Alguns dos autores contemplados: Mário de Sá-Carneiro, António Botto, Joaquim Pessoa, Cesariny, Eugénio de Andrade, David Mourão-Ferreira, Florbela Espanca, António Gedeão, Herberto Helder, Sophia de Mello Breyner Andresen, Nuno Júdice, Carlos Drummond de Andrade, etc.


Outros poemas poderão ser lidos, ditos, recitados, como entenderem os interessados, no Momento dos Espontâneos.

Entrada livre. Divulgue. Compareça. Participe.