Nesta praça apregoa-se a Poesia. Sobretudo a dos outros. Possivelmente alguma da que escrevo. Autores da minha terra, da minha pátria-língua-portuguesa, mas também da nossa Terra-mãe-comum. Nesta praça vendo o sonho de ser poeta, mas não passo talvez de um mero divulgador de Poesia.
Uma garrafa de gin estava a preocupar o pescador a garoupa e o rodovalho não tinham aparecido pró jantar que fazer? telefonou ao ministro da Pesca e do Trabalho mas o ministro estava a trabalhar na cama com a mulher foi então que a garrafa de gin sugeriu discretamente porque não telefonar ao presidente? telefonaram o presidente da nação estava em acção na cama com a mulher nessa altura até que enfim encontraram a solução o pescador foi para a cama com a garrafa de gin
Mário-Henrique Leiria, Contos do Gin-Tonic, Lisboa, Editorial Estampa, 1989
Henrique I, o Pássaro, era um rei muito seco. Por exemplo, nunca bebeu. Comer, comeu, mas nunca bebeu. Nem vinho nem cerveja. Nem aguardente. Nem um grogue. Não era inimigo do álcool, não bebia álcool porque não bebia nada. Limitava-se a comer. Nem um gole de água bebeu em toda a sua vida. Chegava mesmo a odiar a água, nem conseguia olhar para ela. Ao meter as mãos na água, brrr. Nem pensar, porque quando o fazia logo lhe apareciam borbulhinhas lilases. Assim, odiava exclusivamente a água; por exemplo, já não detestava tanto a aguardente. Mas não a bebia. Também a detestava, mas não tanto. Portanto, odiava a água. Ficava sempre com aquelas borbulhas. Mas também não bebia leite, nem sumo de laranja, nada. Nem coca-cola. Mas ainda não existia coca-cola, e mesmo que existisse não a beberia. Não beberia. Antes cuspi-la. Mas comia. É verdade que não comia de tudo. Por exemplo, sopa não comia. Comia muitas coisas, mas sopa não. Assim vivia. Era capaz de comer imenso. Só não bebia. Comia. Era o seu maior prazer. Era um rei esquisito. Um caso bastante estranho. Coisas que acontecem.
¿En qué reino, en qué siglo, bajo qué silenciosa Conjunción de los astros, en qué secreto día Que el mármol no ha salvado, surgió la valerosa Y singular idea de inventar la alegría?
Con otoños de oro la inventaron. El vino Fluye rojo a lo largo de las generaciones Como el río del tiempo y en el arduo camino Nos prodiga su música, su fuego y sus leones.
En la noche del júbilo o en la jornada adversa Exalta la alegría o mitiga el espanto Y el ditirambo nuevo que este día le canto
Otrora lo cantaron el árabe y el persa. Vino, enséñame el arte de ver mi propia historia Como si ésta ya fuera ceniza en la memoria.
Jorge Luis Borges
Em que reino, em que século, sob que silenciosa conjunção dos astros, em que secreto dia que o mármore não gravou, surgiu a fabulosa e singular ideia de se inventar a alegria?
Com outonos de ouro a inventaram. O vinho flui vermelho através das gerações como o rio do tempo e no seu árduo caminho oferece-nos a sua música, o seu fogo e os seus leões.
Na noite do júbilo ou na jornada adversa exalta a alegria ou mitiga o espanto e o ditirambo novo que este dia lhe canto
cantaram-no outrora o árabe e o persa. Vinho, ensina-me a arte de ver a minha própria história como se esta fosse já cinza na memória.
Velasquez, Los borrachos ou The Feast of Bacchus (1627)
Uma vez que ignoras o que te reserva o dia de amanhã, procura ser feliz, hoje. Toma uma ânfora de vinho, senta-te ao luar e bebe lembrando-te que, talvez amanhã, a lua te procurará em vão.
Homem que bebes, ânfora imensa, ignoro quem te modelou. Somente sei que és capaz de conter três medidas de vinho e que a Morte te destruirá um dia. Então perguntarei a mim mesmo, mais demoradamente, por que é que foste criado, por que é que foste feliz e por que é que, agora, és somente poeira.
Quando nasci? Quando morrerei? Nenhum homem pode evocar o dia do seu nascimento e designar o da sua morte. Vem, minha dócil bem-amada! Eu quero pedir à embriaguez que me faça esquecer que nunca saberemos nada.
Na primavera, gosto de me sentar na orla de um campo florido. E, quando uma bela rapariga me traz uma taça de vinho, não me importa nada a minha salvação. Se eu tivesse essa preocupação, valeria menos que um cão.
Ninguém pode compreender o que é misterioso. Ninguém é capaz de ver o que ocultam as aparências. As nossas moradas são provisórias, excepto a última: a terra. Bebe vinho! Basta de palavras supérfluas.
Bebe vinho! Receberás vida eterna. O vinho é o único filtro que pode restituir-te a juventude. Divina estação das rosas, do vinho e dos amigos sinceros. Goza este fugitivo instante que é a vida.
A vida escoa-se. Que resta de Bagdad e de Balk? O menor toque é fatal à rosa completamente desabrochada. Bebe vinho e contempla a lua, evocando as civilizações que ela já viu extinguirem-se.
Quando a sombra da Morte se alongar para mim, quando o feixe dos meus dias estiver atado, eu hei-de chamar-vos e vós levar-me-eis, ó meus amigos! Quando eu me tornar pó, vós moldareis com as minhas cinzas uma ânfora que enchereis de vinho. Talvez, então, me vejais reviver.
Numa taberna, pedi a um velho que me informasse sobre aqueles que morreram. Respondeu-me: «Não voltarão. É tudo o que sei. Bebe vinho!»
Os sábios não te ensinarão nada, mas a carícia dos longos cílios de uma mulher revelar-te-á a felicidade. Não esqueças que os teus dias são contados e que, bem depressa, tu serás presa da terra. Compra vinho, afasta-te para um canto e deixa-o consolar-te.
Cansado de interrogar, em vão, os homens e os livros, eu quis interpelar a ânfora. Pousei os meus lábios sobre os seus e murmurei: Para onde irei quando morrer? A ânfora respondeu: Bebe na minha boca. Bebe longamente. Jamais voltarás aqui.
Ignorante, que te julgas sábio, vejo-te sufocado entre o infinito do passado e o infinito do futuro. Quererias implantar um limite entre esses dois infinitos e aí te alcandorares… Melhor será que te sentes sob uma árvore, junto de um jarro de vinho que te fará esquecer a tua impotência.
Omar Khayyam, Rubayat - Odes ao vinho, Lisboa, Editorial Estampa, 1990 (selecção de Anthero Monteiro para este blogue) _________
Hakim Omar Khayyam nasceu em Naishápúr, cidade do nordeste da Pérsia, em 1048, e morreu em 1123. Ficou famoso não só por ser poeta, mas também conceituado matemático, geómetra e astrónomo, tento dado uma larga contribuição à reforma do calendário persa.
O Outono continua... Mas, com o novo mês (e chegamos atrasados...), é altura de passar a outro tema, eventualmente mais animador.
A partir de um conhecido poema de Natália Correia - A Defesa do Poeta -, iremos conhecer textos poéticos relacionados com os alimentos e a gastronomia.
Abriremos assim uma ementa poemática que nos oferecerá entradas e aperitivos, pratos de peixe e de carne, sobremesas (fruta e doce), sem esquecer as bebidas para empurrar...
E, como sempre acontece junto da abundância, talvez consigamos divisar, entre nuvens de fumo, o espectro da fome a espreitar a fartura, o excesso e o vómito.
Aí está a rentrée. Na próxima quinta-feira, dia 8 de Outubro, às 21.30 horas, na sala das sessões da Junta de Freguesia de Espinho, rua 23, realiza-se a primeira tertúlia poética da temporada.
Os poemas foram, desta vez, escolhidos, em grande parte, por um dos seus mais jovens elementos, a Bebiana Ribeiro, e a componente musical estará a cargo do Carlos Andrade, com a sua voz e a sua guitarra acústica.
Alguns dos autores contemplados: Mário de Sá-Carneiro, António Botto, Joaquim Pessoa, Cesariny, Eugénio de Andrade, David Mourão-Ferreira, Florbela Espanca, António Gedeão, Herberto Helder, Sophia de Mello Breyner Andresen, Nuno Júdice, Carlos Drummond de Andrade, etc.
Outros poemas poderão ser lidos, ditos, recitados, como entenderem os interessados, no Momento dos Espontâneos.
Este é um blogue temático, visando, sobretudo, a divulgação da Poesia, dos Poetas e dos eventos relacionados, a promoção da leitura, dos livros e dos autores de qualidade. O autor considera, pela sua formação intelectual, estar a prestar a todos um serviço e declara não perseguir quaisquer objectivos económicos em seu próprio proveito nem pretender lesar autores, editores ou livreiros. A transcrição de textos para esta Praça respeitará rigorosamente os originais, dando-se, sempre que possível, a indicação detalhada da sua proveniência. As ilustrações serão, de preferência, do autor, indicando-se também a sua proveniência, quando assim não acontecer.
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Autor de vários livros de poesia.
Uma vida a divulgar a poesia e os poetas.
Coordenador de vários eventos literários: Quartas Mal-Ditas (Clube Literário do Porto), Onda Poética (Espinho), Quarto Crescente (S. Paio de Oleiros).
Participou em muitos outros, como nas Noites do Pinguim, e colabora, há cerca de 10 anos, nas Quartas de Poesia do Púcaro's Bar, também no Porto.
Poesia partout, everywhere. Sempre.