segunda-feira, 15 de junho de 2009

Elogio do teu corpo na praia





Boticelli,
Afrodite






De costas para o mar.
as tuas pernas como dois lírios brancos.
duas conchas cavadas no lado de trás dos joelhos,
pequenas gotas de água evaporando-se dentro delas.
o sol começa a dar-te uma cor de ébano novo.
a luz é intensa.
estendo-me junto de ti.
pouso a cabeça nos teus quadris,
essa doce e quente enseada.
como uma sucessão de ondas
as tuas ancas estremecem,
rolam na minha boca.
tenho a minha boca colocada nas tuas ancas.
as minhas mãos nas tuas omoplatas.
respiro contidamente como se fosse uma morte.
beijo-te o pescoço em silêncio.
a luz na praia agora é mais crua.
levantas-te. desapareces na água. respiro ainda em silêncio.
quando regressas o sol é uma rosácea faiscante.
volto a colocar a minha cabeça sobre o teu corpo.
o cheiro intenso do sal abre-me as narinas.
digo muito baixo: é afrodite que vem do mar.
e fico silencioso como um barco ancorado.
da baía do teu corpo começam a levantar voo
as gaivotas das minhas mãos.

Luís Pignatelli, Obra Poética,
Lisboa, &etc, 1999

Gratidão







Foto A.M.










Quero olhar-te nos olhos e ver-te mar
trémulo e multímodo e incomensurável
Quero contemplar-te com o vagar dos pescadores
que põem volúpia e paciência nos anzóis
e pescam na linha do horizonte
o perpétuo retorno das manhãs

Não julgues que desejo conquistar-te
ou dominar a força das marés
Só quero o meu quinhão de eternidade
a parte que me toca da beleza
por ser amante dos oceanos indomáveis

É que eu paro a olhar-te e a extasiar-me
a engrandecer-te mais se é possível
multiplicar as vagas as areias
dilatar a fronteira do infinito
por isso o teu sorriso reverbera
no mínimo eriçar das águas vívidas
e vens mostrar-te ansiosa e irrequieta
ao meu olhar submerso de outras águas

É isso que me deves afinal
É essa a gratidão dos oceanos
que me beijam os pés humildemente

Anthero Monteiro, Canto de Encantos e Desencantos,
V. N. Gaia, Corpos Editora, 2005, 2.ª ed.

Colho a paciência do velho pescador...










Colho a paciência do velho pescador.
Horas e horas curvado na sua linha, o braço
flexível, o dorso visitado
pelas mãos da brisa. Aroma de sal
no rosto. Amigo dos peixes
o que retira da água são algas,
limos. Teço uma coroa de palavras
para a sua cabeça calcinada. Uma gaivota
pousa a seu lado - comovida
com a paciência do homem. Colho-a
bem colhida, nestas horas que passei,
curvado noutra linha,
a vê-lo pescar.

Casimiro de Brito, Livro das Quedas,
Lisboa, Roma Editora, 2005

domingo, 14 de junho de 2009

Inventário marinho








Foto A.M.






os seixos as pedrinhas diminutas
esporos fecundíssimos de areia
mil braços a brotar na maré-cheia
teimosias de lapas pelas grutas
------------ a água que me foge
------------ a mágoa de hoje
------------ e estas loucas angústias

anémonas solares abrindo à aragem
os mexilhões eternos e submissos
os bichos emigrando dos ouriços
objectos e dejectos sempre à margem
------------ lixos impertinentes
------------ e os meus olhos doentes
------------ de não estares na paisagem

os traços dos meus passos coisa pouca
signos do vento hieróglifos do bando
das gaivotas grasnando e conspirando
------------ o glauco latifúndio que treslouca
------------ o dilúvio no estreito
------------ anquilosado peito
------------ e a aridez desta boca

os barcos ou os braços já sem remos
os olhos desprovidos de astrolábios
a tormenta o tormento dos meus lábios
os meus lábios dos teus lábios abstémios
------------ este meu leme à toa
------------ e o silêncio que ecoa
------------ dos beijos que não demos

a tarde solitária que se esfuma
tão vagarosamente peregrina
um adeus adejante da gaivina
o mar sob a escumilha desta bruma
------------ a vestir o disfarce
------------ e o desejo a evolar-se
------------ a desfazer-se em espuma

Anthero Monteiro, Desesperânsia,
V. N. Gaia, Corpos Editora, 2009, 2.ª ed.

Leia o recente prefácio de Manuel Poppe para esta 2.ª edição de Desesperânsia, no blogue Sobre o Risco.

A ausente



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Amiga, infinitamente amiga
Em algum lugar teu coração bate por mim
Em algum lugar teus olhos se fecham à idéia dos meus.
Em algum lugar tuas mãos se crispam, teus seios
Se enchem de leite, tu desfaleces e caminhas
Como que cega ao meu encontro...
Amiga, última doçura
A tranqüilidade suavizou a minha pele
E os meus cabelos. Só meu ventre
Te espera, cheio de raízes e de sombras.
Vem, amiga
Minha nudez é absoluta
Meus olhos são espelhos para o teu desejo
E meu peito é tábua de suplícios
Vem. Meus músculos estão doces para os teus dentes
E áspera é minha barba. Vem mergulhar em mim
Como no mar, vem nadar em mim como no mar
Vem te afogar em mim, amiga minha
Em mim como no mar...

Vinicius de Moraes, Antologia Poética, S. Paulo, Companhia das Letras, 1992

Aqui te amo













Aqui te amo.
Nos sombrios pinheiros desenreda-se o vento.
A lua fosforesce sobre as águas errantes.
Andam dias iguais a perseguir-se.

Desperta-se a névoa em dançantes figuras.
Uma gaivota de prata desprende-se do ocaso.
Às vezes uma vela. Altas, altas estrelas.
Ou a cruz negra de um barco.
Sozinho.

Às vezes amanheço, e até a alma está húmida.
Soa, ressoa o mar ao longe.
Este é um porto.
Aqui te amo.

Aqui te amo e em vão te oculta o horizonte.
Eu continuo a amar-te entre estas frias coisas.
Às vezes vão meus beijos nesses navios graves
que correm pelo mar aonde nunca chegam.
Já me vejo esquecido como estas velhas âncoras.
São mais tristes os cais quando fundeia a tarde.
A minha vida cansa-se inutilmente faminta.
Eu amo o que não tenho. E tu estás tão distante.
O meu tédio forceja com os lentos crepúsculos.
Mas a noite aparece e começa a cantar-me.
A lua faz girar a sua rodagem de sonho.

Olham-me com teus olhos as estrelas maiores.
E como eu te amo, os pinheiros no vento
querem cantar o teu nome com as folhas de arame.

Pablo Neruda, Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada,
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2007
(tradução de Fernando Assis Pacheco)

Miramar






Foto A.M.






Acender um cigarro na praia, proteger
o difícil estertor da pequena chama. Anular
o vento na manga do teu casaco. Reter
preso entre os dedos o princípio breve
dessa efémera combustão.

Inês Lourenço, Teoria da Imunidade,
Porto, Felício & Cabral - Publicações, 1996