terça-feira, 4 de agosto de 2009

Soneto com todos















neste primeiro verso tomo lanço
no segundo começo o devaneio
no terceiro prossigo sem receio
no quarto prá segunda quadra avanço

no quinto é outra estrofe e eu vou de manso
no sexto continuo o meu passeio
no sétimo já estou mesmo no meio
no oitavo salto em frente sem descanso

no nono desço a escada para a base
no décimo até acho isto faceto
no undécimo é a derradeira fase

no décimo segundo outro terceto
no décimo terceiro já está quase
e agora fecho à chave o meu soneto

Anthero Monteiro (inédito)

Ainda o convívio da Onda Poética (fotos de Anaas)














Já fizemos há dias a reportagem fotográfica, então possível, do último convívio da Onda Poética de Espinho, realizado no dia 22 de Julho. Entretanto, a nossa amiga Anaas fez-nos chegar as suas fotos do evento, que revelam, como seria de esperar, os seus extraordinários dotes de fotógrafa.
Aqui publicamos especialmente as fotos que se referem às leituras de poemas feitas durante o convívio, por esta ordem:

- Anaas (a autora das fotos, exceptuando a dela própria);
- Diana Devezas (surgindo de surpresa à janela do 1.º andar);
- Diana Devezas (segunda leitura, efectuada junto à mesa);
- Manuela Correia (a dona das instalações);
- Bebiana Ribeiro (que fez a selecção da maior parte dos poemas);
- Gabriela Ramalho;
- Luís Carvalho;
- Céu Reis;
- Maria Mar;
- Anthero Monteiro;
- Dinis Pinto;
- Carlos Andrade;
- Gilberto Pereira.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Exhaustion










Danny
always fish
always fish
always fish
why not order some meat?

Danny
always a beer
always a beer
always a beer
why not some champagne?

Danny
always kiwi fruit
always kiwi fruit
always kiwi fruit
why not some other dessert?

Danny
always football
always football
always football
why not some soap or other?

Danny
always colgate
always colgate
always colgate
why not some other toothpaste?

Danny
always in bed
always in bed
always in bed
why not somewhere else?

Danny
always on top
always on top
always on top
why not some other position?

(Danny
always Danny
always Danny
always Danny
why not some other man?)

Anthero Monteiro
(tradução para inglês por Assunção Megre e Ron Mitchell)

Ao volante















aí vamos os dois como a voar prá fama
sem pensar nem na morgue nem no hospital
o amor a cento e setenta e tal
por sobre a ponte vasco da gama

mão esquerda nos comandos acelero
que a outra mão tenho-a reservada
e sempre em frente pela madrugada
e que se lixe a tolerância zero

quero lá eu saber do vermelho ou do verde
ou da linha contínua ou dos sinais sem nexo
o que eu quero é saber da luz que há no teu sexo
e é aí, meu bem, que a outra mão se perde

o que eu quero é o fogo mais que insano
é queimar os meus dedos nessa chama
e prosseguir feito vasco da gama
a desbravar as índias pelo oceano

aí vamos os dois rumo ao porvir
abre-te mais num gesto livre e brando
o teu botão é que é o meu comando
a duzentos agora é sempre a abrir sempre a abrir

Anthero Monteiro, Cenas Obscenas,
V.N. Gaia, Corpos Editora, 2001

Leitura










Pablo Picasso,
Tête d'une femme lisant







tu começaste a abrir com lentidão
um livro de poesia um tanto abstrusa
e eu comecei a abrir a tua blusa
soletrando botão após botão

tu desataste a ler e eu contrafeito
maldizendo as estrofes e o poeta
preferia poesia mais concreta
e pus-me a ler o poema do teu peito

os teus dedos folheavam bem tranquilos
numa calma malévola o volume
e os meus dedos queimavam-se no lume
que alastrava do ardor dos teus mamilos

depois interrompeste o que me lias
ficou no ar pairando o doce aroma
da tua voz que ameiga e que me doma
e dava mais poesia às tais poesias

e aqui estamos olhando um para o outro
à espera que um se renda neste impasse
eu a essa poética sintaxe
tu à morfologia do meu corpo

Anthero Monteiro, Cenas Obscenas,
V.N. Gaia, Corpos Editora, 2001

O gato







Fernand Léger,
La Femme au Chat,
1955




quando eu entrei abriste-me o sorriso
e o teu felino olhar algo enigmático
no teu colo dormia sorumbático
um gatarrão da pérsia enorme e liso

elegante macio tão felpudo
a ronronar enredos e segredos
exigia a carícia dos meus dedos
na fofa macieza do veludo

e enquanto das orelhas para a cauda
com prazer do felídeo manifesto
eu ia repetindo aquele gesto
ardiam os teus olhos de esmeralda

num ímpeto malévolo de Herodes
talvez porque o bichano só dormia
talvez pelo requinte da arrelia
lembrei-me de puxar-lhe os seus bigodes

mas num salto esgueirou-se para a rua
e naquele sortílego segundo
nesse relance mágico e profundo
é que eu vi só então que estavas nua

e logo ali num cio sem rodeios
perdido no teu colo já desnudo
as mãos que tinham vindo do veludo
encontraram a seda dos teus seios


Anthero Monteiro, Cenas Obscenas,
V.N. Gaia, Corpos Editora, 2001

O poeta













o presidente acordou cedo
e foi ver a manhã com olhos de poeta
desceu ao jardim
e cumprimentou o sol universal

ao dar conta de outros sóis pequeninos
a morar nas folhas emocionadas
levantou para um deus favorável
os olhos reconhecidos

colheu todos os aromas do jardim
mas apenas uma pétala de um gerânio
para não perturbar demasiado a perfeição das coisas

depois os cães acercaram-se jovialmente
e ele ajoelhou-se na terra
para lhes falar com modos fraternos

viu as horas e quis ser pontual

mal chegou ao seu gabinete
assinou a declaração de guerra

Anthero Monteiro
(inédito)

S. Paio de Oleiros, 27 de Março 2003