Nesta praça apregoa-se a Poesia. Sobretudo a dos outros. Possivelmente alguma da que escrevo. Autores da minha terra, da minha pátria-língua-portuguesa, mas também da nossa Terra-mãe-comum. Nesta praça vendo o sonho de ser poeta, mas não passo talvez de um mero divulgador de Poesia.
Quando estamos na taberna nem do mundo nós cuidamos: só o jogo nos int'ressa, só nele nos empenhamos. E o copo é de quem o peça se com dinheiro o pagamos: assim faças o pedido, de certeza que és ouvido.
Há quem jogue, há quem beba, quem decência tenha pouca; e quem do jogo regresse às vezes sem trazer roupa; outros ganham novas vestes; outros somente uma trouxa... Ninguém teme aqui a morte, mas a Baco pedem sorte.
Bebe-se o copo primeiro àquele que paga o vinho; e mais dois aos prisioneiros; três, depois, aos que estão vivos; quatro, às freiras levianas; a seus cavaleiros, cinco; seis, aos cristãos todos juntos; e sete, aos fiéis defuntos;
oito, aos frades indecentes; mais nove, aos monges vagantes; dez, aos vários pretendentes; onze, pelos navegantes; doze, enfim, aos penitentes; e treze, pelos restantes... Pelo Papa e pelo rei sem medida beberei.
Bebe o dono deste prédio, bebe a dona da taberna; bebe o laico, bebe o clérigo; bebe aquele, bebe aquela; bebe o lento, bebe o lesto; bebe o moço, bebe a velha; bebe o firme, bebe o vago; bebe o rude, bebe o mago.
Bebe o pobre e o enfermo; bebe o triste e o desterrado; bebe o louro e o moreno; bebe o patrão e o criado; bebem grandes e pequenos; bebe o deão e o prelado. E por isto e por aquilo, bebem cem e bebem mil.
Anónimo goliardo, Carmina Burana, potatoria, Trad. de David Mourão-Ferreira, «Vozes da Poesia Europeia - II», in Colóquio Letras n.º 164
Imagens do espectáculo de lançamento de A Música de Junqueiro - livro e cd duplo, sob coordenação do Dr. Henrique Manuel S. Pereira, realizado no passado dia 17, na Universidade Católica, e no qual tiveram o prazer de participar, não apenas o autor deste blogue, mas também os elementos das Quartas Mal Ditas, Luís Carvalho e Diana Devezas, que aqui figuram entre outros dos muitos participantes neste memorável evento.
Um abraço de parabéns para o amigo Henrique Manuel S. Pereira, extensivo, claro, a toda a enorme equipa que conseguiu reunir neste inestimável projecto.
Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros. Não tentaria ser tão perfeito. Relaxaria mais. Seria mais tolo ainda do que tenho sido. Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério. Seria até menos higiénico. Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios. Iria a lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos sopa. Teria mais problemas reais e menos problemas imaginários. Eu fui uma destas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto de sua vida. Claro que tive momentos de alegria mas, se pudesse voltar a viver trataria de ter somente bons momentos. Porque, se não sabem, disso é feito a vida, só de momentos. Não percam o agora. Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termómetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva, um pára-quedas. Se voltasse a viver viajaria mais leve. Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e continuaria assim até o fim do outono. Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra vez uma vida pela frente. Mas, já viram, tenho oitenta e cinco anos, e sei que estou morrendo...
Nadine Stair
Este poema circulou vários anos atribuído a Jorge Luís Borges, embora não se encontre na sua obra completa. Descobriu-se depois que, afinal, foi escrito por uma escritora norte-americana, mais ou menos desconhecida, chamada Nadine Stair, que o publicou em 1978, oito anos antes da morte, em Genebra,com 86 anos, do célebre escritor invisual argentino. O poema foi publicado por uma revista argentina atribuído a Jorge Luís Borges, mas a viúva do poeta, Maria Kodama, obrigou-a a rectificar o erro, ainda que só 8 anos depois, após investigações. Kodama acha que o poema não tem valor literário e desvirtua a mensagem da obra de Borges, pois tenta transmitir um sentido da vida completamente materialista, sem nenhuma busca de perfeição espiritual ou inquietação intelectual.
Num lago fiz moradia
quando era cisne um dia
e era belo e aperaltado.
Mas ai de mim! ai de mim!
que agora estou assim
negro e totalmente assado.
O assador gira gira
e eu pronto a sair da pira
vai-me servir o criado.
E ai de mim! ai de mim!
que agora estou assim
negro e totalmente assado.
Repouso num prato agora
já não voo como outrora
rangem dentes, estou tramado.
E ai de mim! ai de mim!
que agora estou assim
negro e totalmente assado.
De «In taberna», in Carmina Burana,
tradução livre de Anthero Monteiro
Carmina Burana: colecção de canções e poemas medievais, da autoria de monges e eruditos viajantes, encontrados num rolo de pergaminho da Biblioteca da antiga Abadia de Benediktbeuern, na Alta Baviera. A colecção foi editada com este título em 1847 por Johann Andreas Schmeller e seria posteriormente utilizada para o libreto da cantata homónima (1935/36) do músico alemão Carl Orff. Os poemas estão imbuídos da antiga concepção de que a vida humana está sujeita aos caprichos da roda-da-fortuna e, portanto, à mercê da eterna lei da mutabilidade. Daí que o espírito de "carpe diem" perpasse também pelos textos da colectânea, no sentido de que se impõe aproveitar os bons momentos favoráveis da Sorte, antes que venham aqueles que nos são menos propícios.
Este é um blogue temático, visando, sobretudo, a divulgação da Poesia, dos Poetas e dos eventos relacionados, a promoção da leitura, dos livros e dos autores de qualidade. O autor considera, pela sua formação intelectual, estar a prestar a todos um serviço e declara não perseguir quaisquer objectivos económicos em seu próprio proveito nem pretender lesar autores, editores ou livreiros. A transcrição de textos para esta Praça respeitará rigorosamente os originais, dando-se, sempre que possível, a indicação detalhada da sua proveniência. As ilustrações serão, de preferência, do autor, indicando-se também a sua proveniência, quando assim não acontecer.
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Autor de vários livros de poesia.
Uma vida a divulgar a poesia e os poetas.
Coordenador de vários eventos literários: Quartas Mal-Ditas (Clube Literário do Porto), Onda Poética (Espinho), Quarto Crescente (S. Paio de Oleiros).
Participou em muitos outros, como nas Noites do Pinguim, e colabora, há cerca de 10 anos, nas Quartas de Poesia do Púcaro's Bar, também no Porto.
Poesia partout, everywhere. Sempre.