sábado, 27 de dezembro de 2008

Grandes são os desertos...

Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes –
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

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Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.

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Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incómodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida.

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Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
Acendo um cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.

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Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ter que ser assim.

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Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

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Mas tenho que arrumar a mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.

Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

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Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.

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Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei-de arrumá-la e fechá-la;
Hei de vê-la levar de aqui,
Hei de existir independentemente dela.

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Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.

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Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

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Mais vale arrumar a mala.
Fim.

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Álvaro de Campos in Fernando Pessoa, Poesia dos Outros Eus,

Casais de Mem Martins, Rio de Mouro, Círculo de Leitores e Richard Zenith, 2007


«Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!»
Bastava esta frase para escolhermos o poema como um dos melhores da nossa literatura...

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Células de cancro

As células de cancro são aquelas que se esqueceram de como se morre.
(Enfermeira, Hospital Royal Marsden)


Esqueceram-se de como se morre
E por isso prolongam a sua vida de morte.

Eu e o meu tumor carinhosamente lutamos.
Esperemos que não saia uma dupla morte.

Preciso de ver o meu tumor morto
Um tumor que se esquece de morrer
E que em vez disso planeia matar-me.

Mas eu lembro-me de como se morre
Se bem que estejam mortas as minhas testemunhas.
Mas eu lembro-me do que disseram
Dos tumores que os haveriam de tornar
Tão cegos e tão tontos quanto tinham sido
Antes de nascer dessa doença
Que trouxe o tumor até à cena.

As células pretas hão-de secar e morrer
Ou farão o seu caminho a cantar em alegria.
Reproduzem-se tão calmas noite e dia,
Nunca se saberá, não o vão dizer.

Março 2002

Harold Printer, Várias Vozes,
Vila Nova de Famalicão, Quasi Edições, 2006

Esta é a homengem possível ao dramaturgo e poeta inglês Harold Printer, que faleceu anteontem, véspera de Natal, vítima de cancro do esófago, que lhe havia sido diagnosticado em 2002.
Este poema é o testemunho do início da luta que travou contra a doença e que o inutilizou para o trabalho. Nascera em 1930. Foi autor fundamental do teatro contemporâneo e foi agraciado com o Nobel da Literatura em 2005, que não pôde receber pessoalmente.

À espera dos bárbaros

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O que esperamos nós em multidão no Forum?
Os Bárbaros, que chegam hoje.
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Dentro do Senado, porquê tanta inacção?
Se não estão legislando, que fazem lá dentro os senadores?
É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis haviam de fazer agora os senadores?
Os Bárbaros, quando vierem, ditarão as leis.
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Porque é que o Imperador se levantou de manhã cedo?
E às portas da cidade está sentado,
no seu trono, com toda a pompa, de coroa na cabeça?
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Porque os Bárbaros chegam hoje.
E o Imperador está à espera do seu Chefe
para recebê-lo. E até já preparou
um discurso de boas-vindas, em que pôs,
dirigidos a ele, toda a casta de títulos.
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E porque saíram os dois Cônsules, e os Pretores,
hoje, de toga vermelha, as suas togas bordadas?
E porque levavam braceletes, e tantas ametistas,
e os dedos cheios de anéis e de esmeraldas magníficas?
E porque levaram hoje os preciosos bastões,
com pegas de prata e as pontas de ouro em filigrana?
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Porque os Bárbaros chegam hoje,
e coisas dessas maravilham os Bárbaros.
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E porque não vieram hoje aqui, como é costume, os oradores
para discursar, para dizer o que eles sabem dizer?
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Porque os Bárbaros é hoje que aparecem,
e aborrecem-se com eloquências e retóricas.
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Porque, subitamente, começa um mal-estar,
e esta confusão? Como os rostos se tornaram sérios!
E porque se esvaziam tão depressa as ruas e as praças,
e todos voltam para casa tão apreensivos?
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Porque a noite caiu e os Bárbaros não vieram.
E umas pessoas que chegaram da fronteira
dizem que não há lá sinal de Bárbaros.
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E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros?
Essa gente era uma espécie de solução.


Constantin Cavafy, 90 e Mais Quatro Poemas,
Coimbra, Centelha, 1986 (trad. de Jorge de Sena)

Posso escrever os versos...


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Posso escrever os versos mais tristes esta noite.


Escrever, por exemplo: «A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe.»


O vento da noite gira no céu e canta.


Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a, e por vezes ela também me amou.


Em noites como esta tive-a eu nos meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.


Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.


Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi já.


Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.


Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.


Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.


Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, e ela não está comigo.


A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.


Já não a amo, é verdade, mas tanto que eu a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.


De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.


Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.


Porque em noites como esta a tive nos meus braços,
a minha alma não se contenta com havê-la perdido.


Embora esta seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

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Pablo Neruda, Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada,

Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2007 (tradução de Fernando Assis Pacheco)



Retrato de Vladimir in http://www.unap.cl/imagenes/pintores/

Poema com camarinhas (corema album)

as mãos vazias sim. e o relógio no pulso
a dar conta das horas perdidas dos anos em cinza
das pegadas alisadas por dunas viajantes.
cavalgo então no dorso de uma ali por mira
mar senhor da pedra à vista e encontro
aquelas translúcidas camândulas
com que encho os bolsos e mato
a sede à saudade. Voo então no bico
das gaivotas até mais além bem dentro da infância
e pouso numa palmeira do adro da igreja à sombra
da qual aos domingos mulheres de negro vendiam
doces de gema níveos de açúcar e as mesmas bagas
minúsculas que trazíamos para casa num cone de jornal.

agora sim as mãos vazias e tanto bolso roto incapaz
de suster a memória dos dias afogueados a lata dos doces
comida da ferrugem e das formigas e a boca sedenta
de frutos sumarentos exilados do mercado e dos dias do senhor.

de repente topo de novo estas pequenas
drupas rosadas e que bem me sabem
uhmm camarinhas num poema de rosa alice.

Anthero Monteiro

(inédito e a propósito do poema postado imediatamente antes, de Rosa Alice Branco)

A letra mais pequena

Caminhas na praia. As sandálias nas dunas
junto à erva agreste de outros dias. O sol
não te queima, não te fere os olhos ao meio-dia.
Soletramos o amor com a letra mais pequena de uma língua
acabada de inventar. Sabem as gaivotas. Sabe o mar.
Era uma vez. Era assim que te agasalhava a noite
e me enrolava nos teus olhos para encontrar
a luz. Não é com a memória que caminho.
As manhãs de névoa como as camarinhas
que cresciam nas dunas. Com quem posso
agora falar de camarinhas? Saborear o gosto
das bagas e dos risos. Vamos apanhando conchas,
castelos, príncipes, borboletas. Vamos perdendo
o que encontramos. As mãos vazias. Os passos leves.
Os olhos crescem como a erva nas sandálias.

Rosa Alice Branco, Soletrar o Dia,
Vila Nova de Famalicão, Quasi Edições, 2002


Foto: www.ocean.edu/images

«Cântico negro»

Cago na juventude e na constestação

e também me cago em Jean-Luc Godard.

Minha alma é um gabinete secreto

e murado à prova de som

e de Mao-Tsé-Tung. Pelas paredes

nem uma só gravura de Lichtenstein

ou Warhol. Nas prateleiras

entre livros bafientos e descoloridos

não encontrareis decerto os nomes

de Marcuse e Cohn-Bendit. Nebulosos

volumes de qualquer filósofo

maldito, vários poetas graves

e solenes, recrutados entre chineses

do período T’ang, isabelinos,

arcaicos, renascentistas, protonotários

– esses abundam. De pop apenas

o saltar da rolha na garrrafa

de verdasco. Porque eu teimo,

recuso e não alinho. Sou só.

Não parcialmente, mas rigorosamente

Só, anomalia desértica em plena leiva.

Não entro na forma, não acerto o passo,

não submeto a dureza agreste do que escrevo

ao sabor da maioria. Prefiro as minorias.

De alguns. De poucos. De um só se necessário

for. Tenho esperança porém; um dia

compreendereis o significado profundo da minha

originalidade: I am really the Underground.

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Rui Knopfli, Memória Consentida, Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1982


Rui Knopfli nasceu em Moçambique (1932). É autor também de O País dos Outros (1959), Reino Submarino (1964), Máquina de Areia (1964), Mangas Verdes com Sal (1969), A Ilha de Próspero (1972) e O Escriba Acocorado (1978), entre outros.