quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Romance de uma árvore à beira do caminho


















A japoneira do
Dr. Carlos
Soares
(Foto A.M.
)



Perto de Espinho havia uma árvore
havia uma árvore à beira do caminho.
E havia um buraco naquela árvore
perto de Espinho.

(E o povo sabia que havia um buraco
naquela árvore à beira do caminho.)

Mas quando vieram os embuçados
à procura dum médico em terras de Espinho
o povo calou-se não disse nada.
(E o povo sabia que havia um médico
naquela árvore à beira do caminho.)

Esta é uma história que todos sabem
em terras de Espinho.
Esta é a história duma árvore
à beira do caminho.

Era noite cerrada noite negra
era noite de morte no caminho.
E de repente chegaram os embuçados:
procuravam um médico em terras de Espinho.

Era noite sem lua noite de emboscada
noite dum homem não andar sozinho.
Por isso o povo não disse nada:
era noite de embuçados no caminho.

Disseram ao povo que havia um ferido.
Mostraram as mãos: seria sangue? Seria vinho?
E ninguém foi chamar o médico escondido
naquela árvore à beira do caminho.

Era noite sem lua noite de sangue
era noite de esperas no caminho
embuçados chegaram. Embuçados partiram.
Procuravam um médico em terras de Espinho.

Já corre um mensageiro para aquela árvore
À beira do caminho.

Há embuçados. Falaram dum ferido.
Mas o sangue que vimos era vinho.

Já o médico sai do seu buraco
naquela árvore à beira do caminho.
(ai a noite sem lua
ai o sangue que tem a cor do vinho.)

Catorze balas o esperavam
catorze balas o mataram nessa noite em Espinho.
E nunca mais o médico se escondeu
naquela árvore à beira do caminho.

Mas todos os anos na mesma noite
em que o sangue correra nessa aldeia de Espinho
as mãos do povo vinham florir
aquela árvore à beira do caminho.

De novo vieram os embuçados
de novo mataram em terras de Espinho.
Quando se foram já não havia
aquela árvore à beira do caminho.

Mas no dia seguinte no mesmo sítio
Em que havia uma árvore (perto de Espinho)
As mãos do povo vieram plantar
Outra árvore à beira do caminho.

De quando em quando voltam os embuçados
E cortam a árvore do povo de Espinho.
Mas há sempre alguém para plantar
Outra árvore à beira do caminho.

Manuel Alegre
in "O CANTO E AS ARMAS" - Edição de 1970

Esta é uma história verídica, ocorrida em 1940, perto de Espinho, é verdade, mas em Nogueira da Regedoura, concelho da Feira (embora tenha pertencido ao concelho de Espinho entre 1926 e 1928): é a história do Dr. Carlos Ferreira Soares, mais conhecida pelo povo como Dr. Prata, o amigo dos pobres, assassinado em plena ditadura salazarista pela Polícia Política. É também a história da sua japoneira, onde ele se escondia dos esbirros da Pide em pleno cemitério. Na sua campa, floresce também uma japoneira, a lembrar que, apesar de todas as prepotências, o amor pela liberdade continuará a florir nos nossos corações.
(Leia a narrativa destes factos no blogue "Histórias da Minha Terra", de Tiago Santos, aqui.)