quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Sábio é o que se contenta...







Foto
Anthero Monteiro








Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo,
E ao beber nem recorda
Que já bebeu na vida,
Para quem tudo é novo
E imarcescível sempre.

Coroem-no pâmpanos, ou heras, ou rosas volúteis,
Ele sabe que a vida
Passa por ele e tanto
Corta à flor como a ele
De Átropos a tesoura.

Mas ele sabe fazer que a cor do vinho esconda isto,
Que o seu sabor orgíaco
Apague o gosto às horas,
Como a uma voz chorando
O passar das bacantes.

E ele espera, contente quase e bebedor tranquilo,
E apenas desejando
Num desejo mal tido
Que a abominável onda
O não molhe tão cedo.

Ricardo Reis, Odes de Ricardo Reis,
Mem Martins, Livros de Bolso Europa-América, s/d
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Veja-se a diferença entre Ricardo Reis e Alberto Caeiro, quando este diz:

"...eu não quero o presente, quero a realidade."