quarta-feira, 18 de março de 2009

Lua amiga minha









Foto in
www.ouellette001.com


Eis-te de repente ----- Espreitas ----- e devagar
levantas-te do leito do rio ----- afogueada
sacudindo a saia
---------------- Que fazias aí deitada com ele
minha magana?
--------------- Ah lua! Maluca lua que não tomas
juízo!
----- Aqui estamos de novo ----- cara a cara
sorriso no sorriso
----------------- Quantas vezes nos olhámos
assim nos olhos ----- tão enamoradas?
--------------------------------------- Saboreio
daqui deste meu décimo andar jardim suspenso
todos os momentos da tua caminhada céu acima
Agora já estás perfeitamente senhora de ti
redonda e rutilante
------------------- e olhas de alto o rio
que se aquieta para te receber e espelhar
tua inevitável retirada
---------------------- Ninguém te dá a idade
que tens
-------- Quem haveria de dizer que ficaríamos
grisalhas um dia!
---------------- Mas a ti fica-te bem esse cabelo
de neve luminosa ----- O meu pediu ao Outono
o ruivo fulgor de suas folhas
--------------------------- Ah lua amiga minha
da longínqua infância da perdida juventude
cúmplice de tanto fervor adulto ----- sozinho e
comungado ----- confidente de tanto pranto em fogo
transformado ----- à tua alquímica maneira ----- em fina
prata
-----aonde vais buscar esse sorriso manso
teu sereno aceitar de tudo o que acontece
tua ironia doce?
--------------- Quem me dera libertar-me assim
da canseira do dia!
------------------ Minha amiga minha Mãe meu amor
porque és tudo isso ao mesmo tempo
------------------------------------- afaga o áspero
dorso da minha irrequieta mágoa
--------------------------------- e afoga-me no teu
mar de luar
------------ que é água e ar e fogo ao mesmo tempo

Teresa Rita Lopes, Afectos,
Lisboa, Editorial Presença, 2000