segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Autopsicografia



O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão,
Este comboio de corda
Que se chama coração.

1-4-1931
Fernando Pessoa, in Poesia do Eu,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2006
"Dizem que finjo ou minto
Tudo o que escrevo."
Alfredo Luz 1998 - óleo s/ tela 54 x 63 cm
in Celestino Portela, Fernando António - o Pessoa, LAF, 2003