quarta-feira, 5 de novembro de 2008

As mãos de meu pai

As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já da cor da terra
— como são belas as tuas mãos —
pelo quanto lidaram, acariciaram
ou fremiram da nobre cólera dos justos...
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai, essa beleza que se chama
simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam
nos braços da tua cadeira predilecta,
uma luz parece vir de dentro delas.
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem ajunta uns pobres gravetos
e tenta acendê-los contra o vento?
Ah! como os fizeste arder, fulgir, com o milagre das tuas mãos!
E é, ainda, a vida que transfigura as tuas mãos nodosas...
essa chama de vida que transcende a própria vida ...
e que os Anjos um dia chamarão de alma.






Mário Quintana, in Colóquio/Letras n. ° 54, Março 1980